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sábado, 15 de março de 2014

Um Olhar de Pierre Lévy !



O que é o Virtual?
O movimento geral de virtualização ultrapassa amplamente a informatização. Não afeta hoje apenas a informação e a comunicação, mas também os corpos, o funcionamento econômico, os quadros coletivos da sensibilidade ou o exercício da inteligência.
O livro o que é o Virtual defende uma hipótese diferente, exprime uma busca da hominização. É uma visão não catastrofista entre as evoluções culturais em andamento nesta virada do terceiro milênio.
A virtualização é um movimento do “devir outro” – ou heterogênese – do humano. Assim devemos nos esforçar para apreender, pensar, compreender a sua amplitude.
O virtual tem pouco haver com o falso é um modo de ser. É um processo de transformação de um modo de ser num outro. É a virtualização que retorna do real ou do atual em direção ao virtual, é uma transformação inversa.
Contém um desafio triplo: filosófico (o conceito de virtualização), antropológico (a relação entre o processo de hominização e a virtualização) e sócio-político (compreender a mutação contemporânea para poder atuar nela). É uma virtualização em curso de invenção.
O que é a Virtualização?
Sua resposta busca definir os principais conceitos de realidade, de possibilidade, de atualidade e de virtualidade, diferentes transformações de um modo de ser em outro. É a análise da “desterritorialização” e outros fenômenos espaço-temporais estranhos que lhe são geralmente associados.
Existe uma oposição fácil e enganosa entre real e virtual, o primeiro é uma efetuação material, uma presença tangível, o segundo uma ausência de existência. Na filosofia escolástica, virtual é o que existe em potência e não em ato, tende a atualizar-se, sem ter passado, no entanto à concretização efetiva ou formal. O virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual.
A atualização é criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de finalidades. A invenção de uma solução exigida por um problema complexo. A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização. A atualização vai de um problema a uma solução, a virtualização passa de uma solução dada a um outro problema, é um dos principais vetores da criação de realidade.
Segundo o senso comum o virtual é inapreensível, o complementar do real, tangível, não está presente. Embora não pertença a nenhum lugar, frequente um espaço não designável, ocorre apenas entre coisas claramente situadas, de não estar somente presente, nada disso impede a existência.
Uma comunidade virtual pode organizar-se pelos mesmos núcleos de interesses, pelos mesmos problemas: a geografia, o contingente, não é mais nem um ponto de partida, nem uma coerção. Apesar de “não presente”, essa comunidade está repleta de paixões, de projetos, de conflitos e de amizades. Ela vive sem lugar de referência estável. A virtualização reinventa uma cultura nômade, fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se reconfiguram com um mínimo de inércia.
Não é totalmente independente do espaço-tempo de referência, uma vez que deve sempre se inserir em suportes físicos e se atualizar aqui ou alhures, agora ou mais tarde. A sincronização substitui a unidade de lugar, e a interconexão, a unidade de tempo. O virtual deixa de ser imaginário e produz efeitos. Um exemplo é a tecnociência, das finanças e dos meios de comunicação, estruturam a realidade social com mais força, e até com mais violência.
Cada novo sistema de comunicação e de transporte modifica o sistema das proximidades práticas, isto é são novos espaços, novas velocidades, o espaço pertinente para as comunidades humanas. Assim de forma análoga, diversos sistemas de registro e de transmissão, tradição oral, escrita, registro audiovisual, redes digitais, constroem ritmos, velocidades ou qualidades de história diferentes. A multiplicação contemporânea dos espaços faz de nós nômades de um novo estilo. Saltamos de uma rede a outra, de um sistema de proximidade ao seguinte, os espaços de metamorfoseiam e se bifurcam a nossos pés, forçando-nos à heterogênese.
A aceleração das comunicações é contemporânea de um enorme crescimento da mobilidade física. O aumento da comunicação é generalização do transporte rápido participam do mesmo movimento de virtualização da sociedade, da mesma tensão em sair de uma “presença”, o que causou degradações do ambiente tradicional, foi o preço a ser pago, devemos nos interrogar sobre o preço a ser pago pela virtualização informacional. Ela inventa, no gasto e no risco, velocidades qualitativamente novas, espaços-tempos mutantes.
Um caráter associado à virtualização é a passagem do interior ao exterior e do exterior ao interior. São os registros das relações entre privado e público, próprio e comum, subjetivo e objetivo, mapa e território, autor e leitor etc. Os limites não são mais dados, os lugares e tempos se misturam, as fronteiras nítidas dão lugar a uma fractalização das repartições. São as próprias noções de privado e de público que são questionadas.
Os sistemas Inter empresas de gestão eletrônica de documentos, assim como os grupos de projetos comuns a várias organizações, tecem com frequência ligações mais fortes entre coletivos mistos que as que unem passivamente pessoas pertencentes oficialmente à mesma entidade jurídica. A mutualização dos recursos, das informações e das competências provoca claramente esse tipo de indecisão ou de indistinção ativa, esses circuitos de reversão entre exterioridade e interioridade.
Moral !
A moral está em aceitar existir no mundo, em não fugir, em estar presente para os outros e para si. A virtualização é o movimento pelo qual se constituiu e continua a se criar nossa espécie.
A virtualidade não tem absolutamente nada a ver com aquilo que a televisão mostra sobre ela. Não se trata de modo algum de um mundo falso ou imaginário. Ao contrário, a virtualização é a dinâmica mesma do mundo comum, é aquilo que através do qual compartilhamos uma realidade. É um modo de existência de que surgem tanto a verdade como a mentira.
Cada salto a um novo modo de virtualização, cada alargamento do campo dos problemas abrem novos espaços para a verdade, e igualmente para a mentira.
A força e a velocidade da virtualização contemporânea são tão grandes que exilam as pessoas de seus próprios saberes, expulsam-nas de sua identidade, de sua profissão, de seu país. As pessoas são empurradas nas estradas, amontoam-se nos barcos, acotovelam-se nos aeroportos. Outros, ainda mais numerosos, verdadeiros imigrados da subjetividade, são forçados a um nomadismo do interior.
Como responder a esta situação? Devemos antes tentar acompanhar e dar sentido à virtualização, inventando uma nova arte da hospitalidade. Neste momento de grande desterritorialização, deve haver uma nova dimensão estética, próprio traço da criação.
A arte, a filosofia, a política e a tecnologia que são inspiradas e atravessadas, deve opor uma virtualização requalificante, inclusiva e hospitaleira à virtualização pervertida que exclui e desqualifica.
A todos afetados pela virtualização, que se sentem desterritorializados, vocês estão em casa, benvindos à nova morada do gênero humano. Benvindos aos caminhos do virtual.
 
Palestra de Pierre Lévy na Petrobras !
 
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