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domingo, 14 de agosto de 2016

A Microfísica do Poder na Família Brasileira à Luz de Michel Foucault !



         O mundo contemporâneo vive o despertar da mulher em todos os níveis da sociedade, a busca da emancipação com a conquista de direitos e a autonomia no cumprimento de seus deveres. Mas será essa a realidade de todas as famílias brasileiras? A Constituição Federal e o novo Código Civil de 2002 estabelecem direitos e deveres iguais para homens e mulheres cabem ao casal, entre outras coisas, a responsabilidade de criar, educar, guardar, manter e representar os filhos. Mas está presente o pátrio poder que se materializa na cultural e nos relacionamentos entre homens e mulheres no Brasil. O homem se coloca como chefe de família, senhor das decisões familiares. Sobre o poder pode-se dizer muito, existe um discurso que permeia todo corpo social.
O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve−se considerá−lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir. (FOUCAULT, 2015, p. 45)

         Existe um mecanismo de poder que se manifesta na relação do homem com a mulher, a sociedade brasileira ainda detém valores conservadores oriundos de uma tradição patriarcal. O homem ainda possui a última palavra para as decisões mais complexas, como se fosse o detentor da verdade, expressa pelo uso de seu poder. Não será essa uma manifestação do papel existencial do Pai? A verdade de uma forma ou de outra está relacionada com o poder, produz saber, que produz relações de poder e constitui a formação do núcleo familiar.
O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2015, p. 51 e p. 52)

            A questão central está na forma como é elaborado o discurso, que se diz ser verdadeiro. Até onde o pátrio poder dá conta de responder a todos os desafios da família contemporânea? Não seria ele oriundo de um machismo reprimido pelo atual modo de ser da mulher? Uma forma mais transparente, sincera e autônoma, que em muitas das vezes assusta o homem, e o coloca em cheque. Como reação a nova forma de ser da mulher, o homem se afirma com a utilização de seu pátrio poder. Assim percebe-se o modo conservador de ser das famílias brasileiras, e que transcende e forma a sociedade. A grande maioria das pessoas no Brasil ainda são tradicionais e conservadoras em seus núcleos familiares. Novas ideias e formas de ser da família, ainda servem de questionamento paras as pessoas e estão restritas a uma pequena parcela da sociedade. Pois as práticas ou relações que definem a família é exercida pelo pátrio poder.
O poder não existe; existem práticas ou relações de poder. O que significa dizer que o poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona. E funciona como uma maquinaria, como uma máquina social que não está situada num lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social. (FOUCAULT, 2015, p. 17)

         A questão não é se existe o pátrio poder, mas se na forma como as famílias estão constituídas são felizes. A liderança da família pode ser exercida pelo homem, e os debates podem ser compartilhados pelo casal, mas o poder deve está destinado a um membro da família, o qual deve ter a última palavra nas decisões, para assim a família ter um norte, um destino a um bem coletivo. A sociedade brasileira faz a sua escolha na sua forma de ser para preservar a sua sobrevivência e sua longevidade. Se o homem ainda é o líder familiar na maioria das vezes, talvez seja uma escolha feita pela sociedade brasileira. E esta talvez seja a maior responsabilidade de um Pai, ou seja, liderar a sua própria família, tornar os seus membros felizes e imersos no amor de um pelo outro. Este é o sentido existencial de uma família, viver para ser plena e feliz.
Referência Bibliográfica:
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder / organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. – 3. ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.



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