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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Conceito de Esclarecimento !




         O objetivo do esclarecimento é proporcionar o progresso do pensamento, livrar os homens do medo e tornar os homens senhores de si. Os mitos se dissolvem e a imaginação é substituída por saber. Tal saber que gerou a ciência, a guerra e as finanças, no comércio e na navegação. O homem se faz superior pelo saber, mas imersos em conflitos e contradições.
         O saber é poder, não tem fronteiras, se coloca a serviço da economia burguesa na fábrica e no campo de batalha, à disposição dos empresários. Desenvolvem-se métodos para a utilização do trabalho e do capital. O homem faz todo esforço para aprender da natureza como empregá-la para dominá-la completamente e aos homens.
         O esclarecimento se faz no momento em que o homem submete ao critério da calculabilidade e da utilidade o domínio da matéria. O que não se pode submeter torna-se suspeito para o esclarecimento. O esclarecimento torna-se totalitário por adotar o princípio da racionalidade.
         Os mitos se desfazem com o esclarecimento e o mundo é submetido ao domínio dos homens. O homem se percebe poderoso e há uma separação de Deus e dos homens. “Enquanto soberanos da natureza, o deus criador e o espírito ordenador se igualam. A imagem e semelhança divinas do homem consistem na soberania sobre a existência, no olhar do senhor, no comando”. (ADORNO, 1985, p. 21)
         O homem de ciência conhece as coisas na medida em que se pode fazê-las. É o surgimento do mito da ciência e tecnologia, o uso da razão de forma metodológica e racional para um fim, e assim se obter um resultado. Assim, o mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera objetividade. O homem paga o preço pelo seu aumento de poder ao se alienar daquilo sobre o que exerce poder. Um exemplo são os modelos racionais e tecnológicos que trouxeram mais eficiência para o mundo do trabalho. O homem já não domina o seu ofício, não conhece na totalidade o trabalho, ele é apenas uma engrenagem de um grande sistema. O homem deixou de ter a importância central para se fragmentar em várias partes do processo de produção de um bem ou serviço. Assim, o homem se coisifica, pode ser trocado, substituído, descartado quando não apresenta mais utilidade por se tornar obsoleto com a evolução tecnológica. Não há uma ética da ciência, da tecnologia, da racionalidade que dê maior importância para o homem. O trabalho deixa de estar a serviço do homem, para o homem estar a serviço do trabalho. Esse é um dos efeitos da lógica vigente para o uso da ciência e da tecnologia, que é ser cada vez mais eficiente, para ser mais eficaz. Ou seja, o sentido útil de algo está na capacidade de gerar resultado.
         O homem ao ter a confiança inabalável na possibilidade de dominar o mundo através da ciência e tecnologia, não define limites para as suas ações, tudo pode, tudo é permitido desde que seja útil. A questão é: Útil em que espaço de tempo? Quais são as consequências desse tipo de comportamento? A preservação da vida não seria o limite ético para o uso da tecnologia? O que o homem está matando a logo prazo?
         O homem está alienado do mundo, já não se percebe como parte integrante da vida no planeta terra, pela crença inabalável das possibilidades tecnológicas proporcionadas pela ciência. O planeta morre mais a cada ano e a logo prazo o homem morrerá também, sua passagem pela terra será contada pelas ruínas deixadas.
         O pensamento do homem tornou algo coisificado, já não se pensa o pensamento. “A dominação da natureza traça o círculo dentro do qual a Crítica da Razão Pura baniu o pensamento. [...] Não há nenhum ser no mundo que a ciência não possa penetrar, mas o que poder ser penetrado pela ciência não é o ser.” (ADORNO, 1985, p. 33) É a redução do pensamento a uma máquina, que confirma o mundo a sua própria medida. É o triunfo da racionalidade objetiva, submissão de todo ente ao formalismo lógico, é a subordinação da razão ao imediatamente dado.         O conhecer está em cheque, como seremos esclarecidos, se está imposta uma única forma de conhecer? A clareza da forma científica.
         O homem deve escolher em se submeter-se à natureza ou submeter à natureza ao eu. É uma medida de autoconservação ou autodestruição, é a tentativa do eu de sobreviver a si mesmo. “O medo de perder o eu e o de suprimir com o eu o limite entre si mesmo e a outra vida, o temor da morte e da destruição, está imanado a uma promessa de felicidade, que ameaçava a cada instante a civilização.” (ADORNO, 1985, p. 39)
         O homem se adaptou ao poder do progresso, o gerou o progresso do poder. Uma maldição do progresso irrefreável que gerou a irrefreável regressão. Fazendo da aparelhagem social, econômica e científica estarem a serviço de um capitalismo neoliberal, que não vê limite ético para sua expansão através do uso da ciência e tecnologia, apenas quer maximizar o resultado financeiro.

Referência Bibliográfica:
ADORNO, Theodor W., Dialética do esclarecimento fragmentos filosóficos / Theodor W. Adorno, Max Horkheimer; tradução, Guido Antonio de Almeida. – Rio de Janeiro: Zahar, 1985.



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