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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Existe Filosofia Latino-americana ?




Sim, existe filosofia latino-americana e brasileira. Somos capazes de pensar com o mesmo valor epistemológico que a Europa. A inovação da filosofia latino-americana é o olhar do outro a partir da perspectiva do outro. A forma de ser e pensar da América Latina em especial o Brasil é muito frutífero para o mundo filosoficamente falando. A forma de lidar com o multiculturalismo, a convivência pacífica com povos e etnias diversas tem revelado ao mundo uma nova maneira de ser da sociedade. O início do pensamento latino-americano e brasileiro tem a influência do valor epistemológico europeu, só que não ficamos presos a este valor, estamos indo além, buscando os nossos próprios caminhos, o que é fazer uma filosofia própria.
O grego, o latino, o inglês, o francês, ou o alemão praticam a filosofia a partir de sua origem concreta. Sem que esta origem tenha sido objeto de alguma preocupação. [...] Por que, então, os latino-americanos nos vemos forcados a iniciar o nosso filosofar, colocando-nos o problema de se tal filosofar é latino-americano? (ZEA, p. 1)

         A filosofia se refere a problemas universais, eternos, não pode ser submetida a determinações geográficas ou temporais. A filosofia enfrenta os grandes problemas que transcendem a preocupação por temas circunstanciais. A filosofia se coloca problemas e busca soluções. Por isso, a pergunta sobre a existência ou não existência de uma filosofia latino-americana parece estranha à filosofia que buscamos.
         Os latino-americanos pretendem ir muito além da dúvida cartesiana. Pois duvida da própria capacidade de pensar, da capacidade de refletir ou filosofar, da própria existência. E é esta dúvida que o move o filosofar. É um filosofar que coloca em questão a capacidade de filosofar. É o filosofar a partir de suas origens.
Porém, estamos duvidando realmente de nossa capacidade de pensar? Ou simplesmente estamos duvidando de um modo de pensar que parece não coincidir com outro modo de pensar, o qual qualificarmos de filosofia autêntica? Isto é, não estamos, por acaso, partindo de um determinado pressuposto, o do que deve ser considerado como filosofia? Porque é inegável que, ao fazermos perguntas sobre a possível existência de uma filosofia latino-americana, já estamos, de uma ou de outra maneira, pensado, refletindo, filosofando. Salvo se considerarmos que este pensar, refletir ou filosofar não seja filosofia. Ou ao menos não seja o que se considera como autêntica filosofia. (ZEA, p. 2)

         Os filósofos nunca se preocuparam em saber se o que estavam fazendo era ou não filosofia. A interrogação sobre a existência de uma filosofia latino-americana é estranha a uma filosofia autêntica, porque nunca antes os filósofos se haviam colocado tal problema com respeito à origem espacial e temporal de tal filosofar.
                  Será que a reflexão latino-americana é autêntica? Aquilo que é verdadeiro, legítimo, genuíno? Parece que fazer uma filosofia autêntica é o que a reflexão europeia ou ocidental deu origem ao longo de sua história. A inautêntica é a filosofia que surgiu deste lado do atlântico. A reflexão do latino-americano não seria um eco e reflexo de algo que é alheio, que vem de fora? A reflexão latino-americana é original? Que parece inventada ou imaginada, sem modelo e tem cunho ou carácter próprio?
Paradoxalmente, aqueles mesmos que negam que o refletir latino-americano possa ser chamado de filosofia, já que não encontram nele nenhuma expressão de um pensamento sistemático semelhante aos produzidos pela filosofia européia, sustentam, igualmente, que a América Latina não produziu nada de original neste campo. Isto é – como se repetissem Hegel – sustentam que o pensamento latino-americano, produzido até agora, foi simples eco e reflexo do pensamento filosófico europeu. Pura e simples imitação do que outros fizeram. (ZEA, p. 6)

         Essa afirmação de inautenticidade pode ser questionada, já que os latino-americanos ao quererem imitar a filosofia europeia fazem outra coisa, a partir de sua própria originalidade. É a nossa realidade que faz expressar os frutos deste novo filosofar. Não podemos dizer que não somos influenciados pela filosofia europeia, o que ocorre é que partimos da filosofia europeia para construirmos o nosso modo de filosofar, somos originais dentro de nossa própria realidade. O que é então a originalidade? Originalidade não é, supostamente, retirar algo do nada. Originalidade é fazer algo distinto do já existente. A partir desta originalidade os latino-americanos são autênticos. A originalidade está na autenticidade da reflexão.
         Ao se perguntar sobre suas próprias carências, sobre a possível existência ou inexistência de uma reflexão, os latino-americanos já estavam, pura e simplesmente, filosofando sobre uma realidade concreta; a realidade concreta desta nossa América.
Nosso pensamento, reflexão ou filosofia será, precisamente, expressão da tomada de consciência desta situação. Será a consciência da dependência o que deu origem a essa estranha reflexão sobre a qual inquirimos se pode ou não ser chamada de filosofia. Interrogação que já é, em si, expressão de uma situação de dependência da qual os latino-americanos tomaram consciência. Interrogação que está animada pela preocupação que se impôs aos homens da América para que se assemelhassem a seus colonizadores. Isto é, os homens da América não serão considerados homens, se não adquirirem as supostas qualidades de que fazem gala seus colonizadores. Só o serão quando se assemelharem plenamente a eles. Quando forem cópia de seus senhores. Senhores modelo, arquétipo do humano por excelência. Não é esta por acaso a preocupação de quem pergunta sobre se temos, ou não, uma filosofia própria? E o pergunta em relação a um certo modelo de refletir filosófico? Se afirma que refletiremos filosoficamente só na medida em que este nosso refletir se assemelhe ao refletir dos filósofos que deram origem ao que se considera a filosofia por excelência. (ZEA, p. 13)

         No séc. XIX os latino-americanos buscavam uma ordem libertária que substituísse a ordem colonial. O objetivo era mudar a sociedade e mudar o homem. A política e as relações sociais foram os primeiros problemas a serem enfrentados. Uma nova ordem sobre o signo da liberdade e de homens que mudassem a herança colonial que foi imposta a suas mentes, por uma nova concepção do homem e da sociedade que torne possível o regime de liberdade. A emancipação mental havia de se expressar como reeducação dos latino-americanos. Educar para a liberdade foi à meta de pensadores latino-americanos. Só que esta liberdade almejada pode ser questionada, o modo de ser da América Latina reflete a situação de dependência na forma de pensar a vida e buscar a independência e o progresso
Será a partir da consciência da inferioridade, da própria realidade, da própria história, da própria formação histórica e étnica, e da consciência da superioridade das nações que formam o chamado mundo ocidental, que se irá tecendo a trama de uma nova subordinação, de uma nova dependência e servilismo. [...] Civilização é ser como as grandes nações adiantadas do progresso. Barbárie é o modo de ser próprio dos latino-americanos, originado da herança que a colonização ibérica havia deixado na América. Barbárie era o índio, o crioulo, a mescla com raças inferiores. (ZEA, p. 19)

         Ou seja, o homem latino influenciado pelo positivismo, com seus traços, sua forma de ser estava em cheque. Deduzida e aceita a inferioridade da América Latina e sua cultura, assim como a superioridade dos povos europeus, no velho e no novo continente, ficava também deduzido o papel que há de ter a América Latina dentro do âmbito do progresso. Um progresso que só havia de vir pela assimilação racial, cultural e social dos povos que encarnavam o progresso. A América Latina havia caído em uma armadilha filosófica que justificava novas formas de dependência. A experiência do filosofar no século XIX na América Latina não foi benéfica para seu povo.
         Do único passado que a América Latina tem da única história e realidade que são próprias. A América Latina deve partir dessa experiência histórica, a da colonização, a da dependência para pensar uma alternativa, um modo de ser próprio, a partir da própria realidade, sem dependência de modelos estrangeiros. A América Latina pode se auto afirmar, esse é o filosofar latino, buscar resolver os seus próprios problemas por si mesmo. É uma emancipação mental da América Latina. O problema central continua sendo o da consciência da dependência e da necessidade de transcendê-la, de lhe pôr um fim. Uma profunda preocupação da filosofia latino-americano de nossos dias está expressa com a designação da filosofia da libertação. Isto é, filosofia preocupada em mostrar os recursos e as novas possibilidades desta libertação, da mesma forma que a anulação de toda expressão de dependência. Conhecer, e assimilar, qualquer nova expressão da filosofia de outros povos e homens, porém sempre em função das necessidades de nossos povos e homens. Buscando, não a universalidade pela via da imitação, mas a universalidade desde que nossos problemas e soluções possam ser os problemas e soluções de outros homens e povos. Assim torna-se possível fazer filosofia em toda América Latina.

Referência:
ZEA, Leopoldo. Filosofia Latino-americana. Tradução: Nasser Kassem Hammad.



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