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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Que filosofar é aprender a morrer !



          Segundo Cícero, “filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.” Pois o estudo e a contemplação retiram nossa alma de nós e a ocupam separada do corpo, o que é um aprendizado e semelhança com a morte, pois toda sabedoria e razão do mundo ensinam a não ter medo de morrer. A razão escarnece de nós seu trabalho é fazer-nos viver bem. Podemos viver a volúpia ou a virtude nesta vida. Segundo Montaigne, a morte é o fim de nossa caminhada, é o objeto necessário de nossa mira; se nos apavora, como é possível dar um passo à frente sem ser tomado pela ansiedade?” A saída é não pensar nela. Quando a pessoa morre devemos dizer, ele parou de viver, ou ele viveu, em vez de ele morreu. É preciso preparar-se para a morte mais cedo. Para Montaigne, “meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade.” Não há mal na vida para aquele que compreendeu que a privação da vida não é um mal. Ao saber morrer liberta-se de toda sujeição e imposição. Aprender a morrer e desaprender a subjugar-se. A pensarmos na morte, e que estamos a cada dia da vida caminhando para a morte, para Montaigne acabar o que tem a fazer antes de morrer, todo o tempo vago parece curto, ainda que seja trabalho de uma hora. Devemos estar sempre prontos para partir. Assim Montaigne formula a seguinte pergunta: “Por que bravamente visar tantos objetivos quando a vida é tão curta?” Pois todos estão imersos em muitos trabalhos, objetivos, planos, assim se queixam quando vem à morte, uma interrupção dos projetos de vida. Feliz Montaigne, que se acha pronto para morrer. Pode ir quando Deus aprouver sem se lamentar de coisa alguma. “Desligo-me de tudo: minhas despedidas de cada um estão quase feitas, exceto de mim. Nunca um homem se preparou para deixar o mundo mais pura e plenamente, e desapegou-se mais completamente do que eu tento fazer.” Ao comentar sobre as diversas mortes, para Montaigne, quem ensinasse os homens a morrer os ensinaria a viver. Assim fica uma questão para Montaigne: “Em nossa religião (Cristã) não teve fundamento humano mais seguro que o desprezo pela vida. Não só o argumento da razão nos convida a isso, pois por que temeríamos perder uma coisa que, perdida, não pode ser lamentada?” O nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, como a nossa morte trará a morte de todas as coisas. A morte é a origem de outra vida. Viver uma vida longa e viver uma vida curta tornam-se iguais pela morte, pois não há curto e longo nas coisas que não existem mais. Para Montaigne, “a mesma passagem que fizestes da morte à vida, sem paixão e sem temor, refazei-a da vida à morte. Vossa morte é uma das peças da ordem do universo, é uma peça da vida do mundo.” A morte faz parte de nós, a existência que temos está dividida entre a morte e a vida, ao nascermos somos encaminhados para morrer como para viver. A contínua obra de nossa vida é construir a morte. A vida não é em si nem bem nem mal: nela o bem e o mal têm o lugar que lhes dais. A morte não nos diz respeito nem morto nem vivo, vivo, porque existo, estou morto, pro não mais existo. Ninguém morre antes de sua hora. Todos os dias levam à morte: o último a alcança. Assim não há porque temermos a morte, devemos bem viver a cada momento, e preparados para a qualquer momento passarmos pela morte.
Bibliografia:
DE MONTAIGNE, Michel. Os Ensaios – Uma Seleção, Organização de M. A. SCREECH, Tradução e notas de ROSA FREIRE D’AGUIAR, Penguin, Companhia das Letras.


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