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terça-feira, 7 de julho de 2015

Grécia: o cenário é de luta de classe?


          Segundo Juan Domingo Sánchez Estop, ativista do Podemos espanhol e filósofo pela Universidade Complutense de Madrid. “Estamos ante um brutal cenário de luta de classe na Grécia. A coisa vai desde a sabotagem econômica em grande escala, com o fechamento forçado de bancos e a invalidação de cartões de crédito, até o terror social microfísico. Estamos ante um ambiente em que quem vem cortando brutalmente as aposentadorias e os salários diz abertamente que vai continuar a fazê-lo e ainda por cima acusa o governo grego de ser quem coloca em perigo os rendimentos dos cidadãos. Estamos ante um ambiente em que os grandes e pequenos patrões ameaçam te despedir se o “não” vence. Aqui, em Thasos, disseram a muita gente que trabalha no comércio, em postos de gasolina e noutros negócios que dependem do fornecimento contínuo de mercadorias que elas tirassem folga hoje e, se o “não” vencer, que não voltassem mais. Todos os capitalistas, dos maiores aos menores, estão em pé de guerra e exigem que se pague a dívida e se agrave a austeridade, para assim tornar o valor de mercado da força de trabalho ainda mais barato para eles próprios!
As grandes mídias mentem sem parar: dizem que amanhã não haverá mais nenhuma liquidez nos bancos, que a Grécia sairá do euro, da União Europeia e até do sistema solar. Dizem que haverá um corte em mais de 30% das contas de poupança com mais de 8.000 euros depositados, que não haverá nada nos supermercados, que amanhã não terá sequer pão, e que a Syriza quer instalar um regime latino-americano na Europa, quando na verdade os únicos que funcionam como uma oligarquia latino-americana antipática à democracia são os da troika interna e sua base social pitonisa: a burguesia vulgar, dependente e colonial. A direita grega, incluído aí o Partido Socialista (PASOK), agem como cobradores em nome de agiotas, ilegais e ilegítimos. São os vende-pátrias, como na Espanha ou Venezuela.
Apesar de tudo isso, a gente grega mantém o sangue frio. É o que mais chama a atenção. A concentração na Praça Syntagma anteontem foi histórica, colossal: um povo a defender um governo que se misturava com a multidão, com a gente. Varoufakis é o único ministro da economia na Europa que pode atravessar uma multidão recebendo mãos estendidas, beijos, abraços e palavras de encorajamento. Alexis Tsipras, entre a sua gente, a nossa gente, está como um peixe n´água. Há um grande orgulho neste povo, uma enorme dignidade. Ele merece ganhar das forças obscuras da chantagem e do poder oligárquico.
Aconteça o que acontecer, passada a alegria se o OXI (“não”) vencer, ou a tristeza se for o contrário, tudo será muito difícil amanhã para a maioria aqui. Será preciso seguir lutando na Grécia e no restante da Europa, porque se é verdade que o OXI salva o governo popular de Tsipras, amanhã os trabalhadores gregos seguirão tendo um governo, mas ainda sem o poder suficiente para mudar as coisas.
Ter um governo é importante, se com isso é possível mudar muitas coisas e ir transformando as leis a nosso favor, mas a gente da Grécia não precisa ter lido Walter Benjamin para saber que, enquanto os oprimidos não liquidarem a sua condição de oprimidos, eles viverão num estado de exceção permanente, em que governos legítimos e leis importam quase nada diante da realidade da ditadura de classe, das classes capitalistas. É essa ditadura que precisamos tirar de cima de nós se realmente quisermos democracia e liberdade.
O OXI grego pode ser um passo importante, mas precisamos também ganhar noutros países da Europa. Rogo por isso a todos os meus amigos e companheiros de Podemos e a todas as forças de resistência que deixem de apostar em velhos caciques e partidos e deem a palavra à gente, a ela que nutre uma necessidade vital de vencer e sair deste maldito estado de exceção com a cabeça erguida, como pessoas livres e cidadãos dignos, como nossos irmãos e irmãs da Grécia.”
Fonte: 07/07/2015  - Dom Total !
Estamos diante de um novo cenário econômico, o modelo neoliberal do capitalismo vigente demonstra não ser sustentável em longo prazo, pois não é capaz de proporcionar distribuição de renda e justiça social. O modelo de espoliação das classes menos favorecidas que sempre ocorreu nos países periféricos do globo terrestre, agora está presente nos países centrais do primeiro mundo. Ou seja, existem a criação de mais pobres no primeiro mundo.
O que podemos esperar de resultado a longo prazo?
Enquanto a sociedade não faz uma escolha de mudança de paradigma “econômico”, esta mesma sociedade continuará sofrendo as mazelas da dinâmica do neoliberalismo capitalista. Ou seja, a dor de se viver a cada dia tornará mais intensa e aguda. O exemplo do não da Grécia é um não a dor de viver a cada dia. É uma atitude reativa a esse cenário econômico que se materializou no país.
“O medo do desconhecido tornou-se menor
do que o medo do momento presente.”
(Kelmer Reis Figueiredo)
O problema é mais profundo, envolve uma estratégia geopolítica, que pode contagiar as formas de negociação dos desiquilíbrios fiscais na zona do euro por parte de outros países, como Portugal, Espanha e Itália.
Que o mundo não é perfeito todos nós sabemos, e que a injustiça econômica e social recai sobre os mais fracos, também todos nós sabemos. O desafio está em criar um modelo mais justo e sustentável, que aparentemente não é o neoliberalismo capitalista. O que está em crise não é a Grécia, mas o modelo econômico vigente, que privilegia o mercado financeiro, ao utilizar das economias países para salvar o neoliberalismo capitalista. Onde não respeita a soberania política existente em cada país. Hoje vemos o trator do mercado financeiro atropelando milhões de pessoas, ao estimular políticas de austeridade, que não são capazes de produzir um resultado efetivo para estas pessoas, ou seja, na sociedade. O que ocorre é um processo de acumulação financeira na mão de minorias, e um empobrecimento de uma maioria, o que em longo prazo irá gerar uma luta de classes, entre ricos e pobres.
Devemos perguntar:
O que o neoliberalismo capitalista está construindo?
Caminhamos para uma destruição, onde depois teremos margem, para a construção de uma nova lógica econômica. A questão é:
Quem sairá vivo desse processo perverso de desenvolvimento e crescimento?
A sociedade cientificamente evoluiu muito, mas ainda não encontramos uma resposta justa e sustentável para constituição de uma sociedade saudável.
Cabe a sociedade ter a coragem de buscar uma alternativa viável, mesmo que signifique a ruptura com o modelo econômico vigente.
“Quem vive temeroso nunca será livre.”
(Horácio)



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